Por Anamaria Murta

DA JANELA

Desde o ano passado, com o início da pandemia e do isolamento social, as janelas ganharam importância na sua função de conexão com o mundo externo, ou de mediadoras entre o espaço da privacidade e da coletividade.

Observando um pequeno pedaço da Serra do Curral na paisagem da minha janela, percebi como ele vem diminuindo. Moro neste apartamento desde o final de 2011, mas desde o fim da década de 1970 meus pais me deram janelas neste prédio com vista para esta serra e o privilégio de poder ir a pé para a Escola de Arquitetura da UFMG. 

Sempre adorei ver o contraste da Serra do Curral com o céu azul de B.H. em abril, destacando os edifícios. A paisagem desta metrópole me fascina. 

Trancada em casa, desde março de 2020, a saudade da rua, do verde e da cidade me fez refletir sobre a paisagem da minha janela.

Deu saudade da vista que tinha da sala da casa dos meus pais: Av. Afonso Pena com seus ipês, quaresmeiras e paineiras, alguns edifícios de dois a quatro pavimentos e a Serra do Curral, linda, cujos contornos eram marcados pelo único edifício multifamiliar vertical com mais de dez pavimentos: o Ed. Panorama.

No Ed. Panorama havia um bar, lugar de encontro de várias gerações. Em frente a ele a Padaria ABC e, na Afonso Pena, uma confeitaria com a melhor coxinha de camarão do mundo! Esses eram espaços bem vividos e não apenas vistos da minha janela.

Dela eu vi a paisagem mudar, a princípio lentamente: Ed. Serramares na década de 1980, depois o Ed. Enterprise Center na Av. Afonso Pena. Ao longo da Rua Prof. Moraes, vários edifícios comerciais ou residenciais surgindo e escondendo outro pedaço da Serra do Curral e as torres do Colégio Sagrado Coração de Jesus.

Nos anos 1990 e na primeira década do século XXI, a paisagem se alterou de forma vertiginosa. Houve a corrida para aprovação de projetos antes do Plano Diretor de 1996, outra nos anos 2001 e outra ainda em 2010. A construção civil ganhou impulso derrubando casas e pequenos edifícios e construindo condomínios verticais. Olhei menos pela minha janela nesses anos. A paisagem que via eram de outras janelas nos escritórios onde trabalhei muito, projetando também edifícios verticais, ou nos apartamentos onde morei e vi meus filhos crescerem.

Nos últimos 10 anos, voltando a morar no mesmo edifício dos meus pais, resgatei o olhar pela minha janela. Venho olhando a diminuição da vista da Serra do Curral e sofrendo com cada pedacinho que deixo de ver.

Há uns cinco anos um neon azul atrapalhou minha vista, quando no fim do dia, no canto direito da minha janela, brilhava um edifício comercial que queria estar em Dubai. 

Mais ou menos na mesma época, a padaria ABC cedeu seu espaço para uma torre que ousou ser mais alta que o Ed. Panorama, patrimônio tombado da cidade. Mais uma vez, a ganância foi maior que o respeito.

No último ano, deixei de ser incomodada pelo neon azul. Uma torre residencial de 15 pavimentos, erguida a um quarteirão da minha casa, “escondeu” o efeito Dubai. Antes, porém, derrubou um abacateiro centenário sob as lágrimas de inconsoláveis vizinhos. Em seu primeiro verão, a nova torre nos causou enorme desconforto barrando o vento que vinha da Av. Afonso Pena e escondendo o sol dos pilotis de alguns edifícios vizinhos e do meu.

Hoje, da janela, vejo um mar de edifícios, caixas d’água, caixas de elevador, antenas e para-raios que se misturam às copas das árvores que o cruzamento das avenidas Bernardo Monteiro e Afonso Pena ainda nos permite olhar.

Pelas janelas da internet, assisti uma palestra sobre Patrimônio e Cidadania, do 27º Congresso Internacional de Arquitetos. Voltei a pensar sobre a postura do arquiteto como cidadão: o habitante que, como técnico, pode fazer diferente.

Percebo que os que vieram antes de mim, a minha geração e, também, as várias gerações de arquitetos que ajudei a formar, permitiram que nosso patrimônio natural e edificado se perdesse. Temos responsabilidade, com certeza, se a Serra do Curral e o belo horizonte já fazem parte do passado. 

Infelizmente “o passado é uma roupa que não nos serve mais”…

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